Tuesday, March 04, 2008



O tempo...

De repente você olha para si mesmo, ou melhor, para o tempo, e descobre algo que pode mudar sua vida para sempre. Esse tal manipulador das horas e dos fatos, com todas as suas demarcações abstratas, pode ser uma invenção da nossa cabeça.
Você já parou pensar que o seu passado, a época do colégio, os aniversários de dez, ou onze anos, o beijo roubado na festa, o primeiro porre, aquela mágoa antiga por ter sido traído, as coisas que você poderia ter feito e não fez, e, segundo seu julgamento, mudariam o curso do presente, tudo pode nunca ter sido vivido? Não há razão para espanto. Entenda, as recordações que a sua mente reproduz deturparam a autenticidade do passado, a maioria das imagens que o acompanham são projeções da sua imaginação, embaçaram o vidro das lembranças, muito daquilo que reside em sua memória é um invento seu.
Se for capaz, suponha que o agora, a conversa no telefone, a briga com o namorado, esse texto que você está lendo, qualquer coisa que esteja acontecendo nesse instante de vida, nisso que chamamos de presente, seja apenas uma reprodução, como uma reprise de um programa de tevê que você viu num dia remoto, mas esqueceu. É isso que ocorre quando o presente torna-se passado, ao lembrar o que se foi, uma dor, um jogo de futebol, uma transa, você constrói um produto novo, modificado. Por isso, algumas pessoas lamentam tanto a perda de algo ou alguém, porque suas mentes projetam o passado à luz das suas pretensões.
Na verdade, o tempo é impreciso demais para confiarmos nele, principalmente o futuro, esse não passa de uma alucinação. A existência de um porvir é uma mentira nossa, porque todos os nossos projetos não passam de réplicas, nossos sonhos (por mais belos que sejam) nunca se tornarão realidade visível, palpável. Fama, sucesso, estabilidade profissional, isso nunca parecerá autêntico caso se transfigure em presente.
Pode parecer tolice, mas o tempo não existe, por isso o homem não o domina. A nossa lembrança é um vulto recriado a grosso modo para a nossa satisfação, para justificar as amarras do presente, as limitações, os prejuízos, os pecados. O futuro é uma desculpa esfarrapada para viver em função de algo maior, de uma utopia, de um-poder-ser, é uma miragem que impulsiona os desejos, sustenta as esperanças mais torpes.
Sempre dizemos que o tempo é efêmero, ele passa por nós sem que percebamos seu trajeto, mas qual a comprovação que temos para chamar o futuro de futuro, ou o passado de passado? A história e os seus mitos têm demonstrado sucessivos enganos e o futuro tem se tornado um desastre previsível, que dirá os filmes hollywoodianos que se tornaram evangelhos futuristas de uma era comandada pelas máquinas, pela guerra (haverá no roteiro desta vida um herói para nos presentear com um final feliz?)
Os acontecimentos narrados nos livros, as revoluções, as atrocidades de Hitler, Mussolini, as fogueiras da inquisição, tudo de fato existiu, mas sofreram mutações nas páginas, nas telas de cinema. Foram fatos reduzidos a ficção, a dramatização imbecialista e não podem ser consideradas fidedignas, leais ao passado, não poderiam então ser passado, história com H maiúsculo.
O tempo é ameaça ou palavra-chave para o enredo da nossa existência, mas não há tempo cronólogico nessa narrativa, tudo é psicológico. O Script da nossa vida precisa mesmo de um reparo. A existência segue um clichê: nascer, crescer e morrer. O tempo é o responsável pela presença da morte, pela consumação da vida. O que nos põe rugas nos olhos, atrofia o corpo, enfraquece os ossos, o que nos provoca o infarto não é o tempo, é a constante manisfestação do presente, são os fatos sucessivos, a habitualidade do cotidiano.
O conflito e o clímax do nosso conto estão focados no que não existe: nos tentáculos do passado, nas previsões inconsistentes do futuro.
O homem precisa apenas do tempo como pretexto para ser homem, a morte deveria se chamar engano e o tempo deveria ser batizado apenas de presente.
Geovane Belo

Friday, February 29, 2008

Os caminhos do acaso
Muitos falam dessa coisa de amor à primeira vista, flerte, paixão no primeiro encontro. Mas entre eles nada mais houve, a não ser horror, náusea, enjôo, tédio. Bastou os olhares se cruzarem para se repelirem, como em eletricidade dois pólos iguais o fazem. Mas ele e ela, do contrário, eram bem diferentes, ali se avistaram e ali se odiaram logo de cara.
Era o primeiro dia de aula e foi mesmo um choque, sem nenhum fio, bem maior que um de 110 ou 220 w, um choque de incompatibilidade nas idéias, um jogo de repulsa, repudio, uma corrente de um circuito desvairado chamado acaso, quase um caos do destino. De início, nada disseram um ao outro, só se fitaram num exame breve, mas exageradamente meticuloso, e bastou que se vissem para um não admitir a presença do outro.
Não, o pior de tudo é que tinha de ser justamente ali, na escola? Estariam condenados a se aturarem por todo o ano letivo? Seria mesmo um saco suportar este carma, este martírio, esta mazela. Seria um ó, uma ocupação fatigante, talvez impossível de ser cumprida sem apelar para os punhos, ou as unhas.
Eles eram mundos diferentes que teriam de caber dentro das mesmas quatro paredes.
Ela (optei por chamá-la assim para não deixar indícios da identidade da personagem) era ciente do busto muito empinado, de seu rosto de feições harmoniosas, do lábio grosso e divinamente esculpido, do cabelo loiro e espesso, cuidadosamente caído sobre os ombros. Por isso, e muito mais, andava sobre um tapete vermelho invisível; talvez o queixo empinado lhe passasse a cabeça, caminhava pelos corredores da velha escola como numa passarela, quem sabe no Fashion Rio; logo ela que nunca saíra da pacata cidade de Santa Maria do Pará. Contudo, a beleza que lhe sobrava, faltava-lhe em juízo e persistência nos estudos, isso para não enquadrá-la, como alguns diziam, no conceito grosseiro dado às loiras.
Ele (vou chamá-lo assim também para preservar a imagem do ser humano aqui representado) parecia mais aqueles nerdes retraídos, recolhidos na sua tristeza intelectual, tinha os olhos fundos e a boca murcha, o corpo meio fino e desigual, era novato. Parecia ser daqueles que só abrem a boca para, em tom reduzido, responder às perguntas da professora. Da escola onde vinha, na capital, suas notas eram as melhores, mas para ser fiel ao estereótipo do CDF’s não aparentava ser bom com as meninas. Melhor, mais fácil o céu beijar o chão do que um cara desses beijar alguém.
Suas almas já haviam compreendido o horror da companhia advinda, então, quando inevitavelmente colidiram, ombro com ombro, no retorno do intervalo, encararam-se rancorosamente e despencaram com o verbo o que nos olhos já havia: repugnância, fúria, asco. Com espantoso afiamento nas línguas, travaram diante da turma um rebate de afrontas, vocábulos, palavrões. Pareciam guardar mágoas de anos. Durante cinco minutos (os mais longos daquele dia), esbravejaram, gesticularam, viam-se faíscas por todos os lados. Em ambos, a voz do inimigo golpeava os tímpanos e a paciência como ruídos ou ais. O teto e as paredes ficaram pasmados com tantos horrores proferidos, os colegas de classe se rendiam aos espantos e os mais sacanas aos risos. Ela, mais despeitada, exagerou de verdade nos xingamentos, ofendeu-lhe a mãe e terminou o mandando para uma casa não muito habitável pela moral. Ele, mais contido, mal conseguiu chamá-la de burra.
Do dia seguinte em diante, fingiram não mais existir um para o outro. Sentaram em lados contrários da sala, não se olhavam nem mesmo de relance, cada qual tentou apagar da pele as marcas daquele dia, mas, no fundo, ainda havia uma nódoa, não na epiderme, mas entranhada no pano da memória. Havia, sobretudo, um nó na garganta, uma amargura diária que se prolongaria por todo ano, caso algumas coisas não fossem passadas a limpo.
Desde aquele primeiro encontro, à primeira vista, não mais se enxergaram frente a frente, só que se sabiam ali. Sentiam a presença amarga do ser abominável do outro, conheciam-se no cheiro, nos passos. Notava-se na hora da prova a companhia, reconheciam-se na fala, mesmo baixa e a distância. Por ora, quando o silêncio tomava a sala, pareciam ouvir até mesmo o ofegar da respiração; assim se esquivavam do perigo feito presa da fera. Ela e Ele temiam que, cedo ou tarde, o acaso lhes pregasse uma peça, colocando-os entrelaçados numa teia da qual não pudessem mais fugir. E não é que isso se deu?
Era o último dia das provas do primeiro semestre, existia especialmente nos dois uma ânsia de que as férias viessem logo, afastando temporariamente o fantasma daquele ser asqueroso. Entretanto, nos dois aflorou uma aspiração: aproveitariam o momento de despedida para despejar todas as afrontas que ficaram guardadas desde o primeiro dia de aula. Fariam o outro engolir o sapo pela sua miserabilidade e pelo infortúnio de se meter com a pessoa errada. Depois das férias, quem sabe, seu opositor aprendesse a lição e, com sorte, sumisse de vez.
Nesse ponto seus pensamentos convergiam, precisavam tirar esse peso de si, deixar escorrer a fúria que corroia o íntimo da vida, ou não teriam paz. Porém, não foi apenas essa a coincidência, o mundo inteiro parecia conspirar para o segundo encontro, o segundo olhar.
Quando chegaram ao colégio tudo estava deserto, levados pela ansiedade tinham chegado cedo demais àquele cenário onde o espetáculo iminente se daria. Mal atravessaram o portão metálico para que nos dois um frio lhes varresse o corpo. Certamente o inimigo estava ali, espreitando, maquinando alguma coisa, esquematizando uma arapuca, precisavam prever uma cilada, manter a cautela, assim não seriam pegos de surpresa.
Entraram por lados opostos da escola. Existiam ali dois corredores, todos levavam ao bloco A, onde ficavam três salas, respectivamente, da esquerda para direita, a do primeiro, a do segundo e a do terceiro ano. Caminharam como objetos desenhados, apreensivos e cabisbaixos, para quem acredita no destino, simultaneamente, isso, num mesmo compasso, iguais no suspiro e no anseio de explodir. Discursos decorados, gestos calculados, não deixariam possibilidade de reação. A sala ficava no meio e como quem vai impulsionado mais pelo desejo do que pelas pernas, teceram o caminho num silêncio seco, os pés e as lajotas eram a única visão possível.
Repentinamente os dois mundos se chocaram outra vez, agora mais violentamente, como dois animais bravios. Não couberam no espaço da porta, e ali ficaram, engasgados na entrada, soterrados no mesmo canto, peito no peito. Então, as mãos se cruzaram de súbito, e foi aí que se viram pela segunda vez, bem perto um do outro, invadindo a profundidade dos olhos alheios, tão grudados como nunca. Percorreram naqueles longos segundos todos os caminhos de dentro. Os sentidos se esvaíram, apenas o peito gelou, todas as palavras pré-elaboradas se extinguiram, e sem porquês a ira cessou, sem porquês se amaram, mudamente, com os olhos e com as mãos, numa entrega profunda e mágica. Amaram-se no segundo olhar, no primeiro enlaçar das mãos, ou quem sabe bem antes o tenham sentido ao avesso e agora desvendavam a materialidade desse amor. Nada disseram, o texto dos olhares apaixonados não precisava voz.
Horas, dias couberam naquele pouco tempo. Só foram desatados do feitiço pelo tossir irônico do professor de matemática que os trouxe de volta à realidade mundana, ao cosmo comum do ambiente escolar. Entretanto, regressaram apenas de uma viagem curta, que os tinha levado a um novo habitat: da rispidez do ódio à infinita galáxia do amor. Não se sabe o que encontraram naquele instante, porém isso havia transformado sombras em luz; deixaram o chão da realidade para navegar no oceano de um sonho. Foi impossível se concentrarem na prova, bestificados com o mistério contemplado, somente rascunharam alguns números na página do teste.
Naquele dia, não tiveram mais coragem de se procurar, se antes fugiam por se repelirem, agora fugiam da atração inevitável, fugiam da desordem interna que a presença, agora real, do outro causava. Voltaram para casa como quem caminha sem rumo e sem base nos pés e o desejo de libertação proporcionado pelas férias, tornou-se a
gora uma tortura ferrenha.
A partir daí, os dias eram noites de padecimento e suspiros incontidos, as madrugadas corriam longas como um mar turbulento; insônia, vigília, perturbação, vertigem. Eles, como todos os andarilhos do amor, não conheciam as trilhas desse sentimento nem razão. Os dois viajaram com a família para vários lugares, em todos os cantos se viam, confundiam-se nos estranhos pelo faro, pelo olhar, pelos cabelos, pela cor da pele. Reinventaram a imagem do ser amado no adormecer e despertar de cada dia. Eles respiraram, durante a eternidade desse mês, um ar novo, ar de quem põe nos pulmões a saudade e a carência, nesse tempo se amaram mutuamente numa entrega verdadeira e enigmática.
Finalmente chegara o dia do reencontro, e conforme suas vidas se pediam, precisavam se alimentar um do outro. Demoraram-se em casa na escolha da calça, no passar da farda, no penteio do cabelo e principalmente no escovar dos dentes. Atormentaram-se no trajeto até a escola, decoraram e esqueceram palavras.
Eram namorados do acaso, e novamente este fez sua parte. Cruzaram-se, pouco antes do portão, que já estava para ser fechado pelo atraso, e perdidos se fitaram pela terceira vez, vasculharam as brechas que haviam sido abertas, as rotas deixadas por aquele segundo encontro. Deixaram o tempo a deriva e se abandonaram naquele ofício de se verem minuciosamente. O porteiro fechou o portão. O mundo parecia girar em função dos seus corpos deixados do lado de fora. Desejaram-se muito.
De repente, um impulso incompreensível revelou-lhes a grande desproporção de suas formas, não aceitaram o que sentiram, amaram-se como à primeira vista, ao inverso, e descobriram o amor no ódio que sentiram novamente um pelo outro. Desviaram-se do caminho dos seus corações, e bem mais que a simples ira sentida no primeiro encontro, um caos de sensações misturadas os alimentou, uma cólera avassaladora. Desse modo, por se saberem tão estranhos, tão estrangeiros no universo do ser amado, juraram ódio eterno e deixaram fluir de suas bocas coisas imundas, afastaram-se porque seus corpos se pediam, ofenderam-se porque se adoraram e o orgulho não permitiria que dois mundos opostos se tornassem um. Às vezes, um verdadeiro amor não admite amar, nega, fere, blasfema, porque combate a impossibilidade desse sentir, que é belo, com o feiíssimo, o horrendo, diz ter pavor da pessoa amada porque não se permite aceitar cobiçá-la mais que tudo.
Na volta para casa, eles deixaram escorrer algumas poucas lágrimas, num cruzamento extraordinário de amor e ódio, não se sentiram felizes, porque a alegria no amor é sempre muito pouca.

Geovane Belo